Vale do Ave

Revista Literária

Contos Poveiros – A Cruz

pmramires

Setembro de 2011. Tomás, cabelo esfrangalhado, mochila às costas, calças de ganga, sapatilhas desportivas, t-shirt estampada com uma mulher nua que pergunta Por que esperas?, vagueia entre os carros e chega à estação Pólo Universitário, maculado pela sombra da Faculdade de Economia. Rapaz espirituoso, agitado pela adrenalina da irresponsabilidade, dá estalidos com os dedos e assobia de forma incoerente enquanto desliza pelo corrimão da escadaria, língua do metropolitano: número de circo número sete para impressionar as miúdas. Salta para a carruagem. Escarrapachado num banco lateral, sem objecto com que se entreter, assiste impotente à conquista da realidade sobre a alucinação: exame de econometria, o diabo do exame de econometria – ponte de resgate minada, lanterna de orientação fundida. Bandeira vermelha na praia azul, disco riscado no set, pé que escorrega sobre a meta, a eterna frustração, como se tivesse de carregar cada pecado sempre um pouco mais além do que considerava justo. Fatigado, sem sentir o pulso da imaginação, inadvertidamente irresoluto, antecipa mentalmente recorrer ao paliativo tradicional quando a voz feminina, irritante e monocórdica anunciar Póvoa de Varzim e lá fora aparecer, com implacável vigor, a espiral diabólica de humilhação ansiosa por sugá-lo: baptizar nova queda com sacramentos de vodka, vias-sacras de absinto, a sedução desta ou daquela rapariga com queda para o fracasso.

Mimicando um gesto milhares de vezes repetido e que, no seu corpo, simboliza a intersecção do cansaço com a impotência, estica-se um pouco, dobra o pescoço para trás, pousa a nuca no espaldar e com um olhar inexpressivo percorre o tecto da carruagem até as pestanas tombarem umas sobre as outras. Aqui, leva um cachaço!

Com franqueza se admita, acomodar um cachaço no preciso momento em que o corpo entorpecido assenta relaxado e o espírito dilacerado por fim repousa, poucas almas há que o consigam fazer sem praguejarem e de imediato se envolverem numa briga, indiferentes ao local e aos opositores, tal é o arrepio e a raiva que excita os receptores em semelhante ocasião. Tomás, contudo, ligeiramente aturdido, limitou-se a ajustar lateralmente o corpo e girar o pescoço, como se, depois de sofrer, à traição, aquele acto selvagem, o gesto que lhe restasse fosse o de reconhecer a presença da única criatura capaz de o executar – e ele lá estava, o Frizer do Xangai, contorcendo-se de riso, bocarra escancarada, olhos brilhantes de basilisco por entre pálpebras franzidas, o rosto patibular exprimindo uma explosão de regozijo pela pequena armadilha que confeccionou enquanto assistia à entrada de Tomás na carruagem ter funcionado em pleno: não se denunciou; não emitiu qualquer sinal; não produziu qualquer som; e, quando o apanhou desprevenido, executou impiedosamente o golpe planeado. Em certos meios, atinge-se a glória por este tipo de sucesso.

Os mais velhos porventura já se esqueceram mas vocês, jovens cavalheiros, sabem melhor do que ninguém que se é agraciado com uma alcunha pelas razões mais fúteis e mais cruéis: uma característica física aleatória (orelhas voadoras; narizes protuberantes; uma face que remete para a inconveniente figura de um animal); o uso de uma expressão demasiado infeliz para ser esquecida; ou o fatal erro lexical quando a audiência está com a atenção no pico, são exemplos comuns. Frizer adquiriu a sua a partir de uma seta geek autorizada e impulsionada pelo local onde habita: proveniente do bairro social mais central da cidade, conhecido pela fauna autóctone como Xangai, viu a má fama deste alastrar-se até ao cognome através de uma maldita personagem de uns famosos desenhos animados.

Mirando-o, Tomás detectou, e o ligeiro franzir do cenho talvez tenha denunciado a sua surpresa, uma delgada e bela rapariga sentada ao lado do amigo, trincando lascivamente uma maçã. Os olhos cintilavam sob esguias sobrancelhas; o cabelo apanhado, à colegial, e a timidez apreensível pelos lábios constrangidos sugeriam que um lastro de adolescência sobrevivia, ainda que sufocada, na sua face. Sentindo-se observada, adoptou um olhar difuso, fazendo-se distraída. Que saudades da escola! Que fome de maçã! Em que terra miraculosa terá este nabo plantado as sementes da fortuna?, pensou Tomás.

− Tomás, meu sacaninha, há muito tempo que não te via… Nem a ti, nem a essa sebosa mochila que trazes sempre às costas! Julgava-te para sempre livre desta sinistra faculdade. Vim aí buscar um certificado. Sabes quanto é que eles me levaram? Quinze euros por uma folha pá!, uma porcaria de uma folha, a confirmarem que concluí a licenciatura! Concluímos o raio da licenciatura e a seguir ainda nos pedem quinze euros, ouve bem Tomás, quinze malditos euros!, como se não passasse de uma mera formalidade, para nos dizerem o quê?, que concluímos o raio da licenciatura!… Diabos me levem se estes gajos não nos querem sugar! Espero ter sido a última vez que pus os pés naquela estúpida faculdade… Mas e tu, o que andas por aqui a fazer? Tens um ar cansado, pá, agora parece que andas sempre com um ar cansado… Pareces até bastante abatido, camarada, vem aí mais um desaire? Tu vê lá se te livras daquilo, rapaz, ou ainda dá cabo de ti…

Tomás protelou uma resposta, limitando-se a encolher os ombros, ao mesmo tempo que os seus lábios perfilhavam a síntese de um sorriso. Não sabia muito bem o que dizer, como se uma espessa fadiga tivesse invadido e coagulado o filtro por onde escorrem os ditos sardónicos aconselháveis ao momento.

− Não está a ser nada fácil livrar-me disto… Não estava a contar… Sinceramente, penso que ainda não é desta… − e calou-se, reconhecendo a incapacidade do seu sentido de humor em saltar mais uma barreira do desapontamento. Quando já se insinuava o tipo de ambiente embaraçoso que se gera pelo encontro de uma pessoa enclausurada numa porfiada resignação e outra que parece sempre pronta a iniciar um motim, acrescentou: − Temos de ir beber um copo, voltar a dar umas voltas, como nos velhos tempos… – e voltou a relancear a jovem, que agora apontava o azul safira dos olhos pela janela, observando meticulosamente o inerte e denso negrume do subterrâneo.

− Tenho um santo remédio para ti. Logo temos jantarada no Galo d’ Ouro, costeletão de boi e receita até entupirmos as válvulas, companheiro! E depois, diabos me levem se não teremos whiskey, na Praça do Almada, abençoado pelo Eça, como de costume. Até parece que vai haver entradas e essa porra toda. Aquilo fecha só para nós, campeão! Será uma grande festa, cantaremos o Pablito e tudo!

Um jantar com Frizer e os seus compinchas tinha toda a aparência de ser a roldana que Tomás procurava para sair do fétido poço em que estava metido. Adivinhando o festival de javardice, onde se poderá escalavrar um local já de si arruinado e comer e beber e cantar como só em dias de festa, Tomás acenava positivamente com a cabeça enquanto ainda ouvia a excitante descrição do amigo. E por entre a ardente expectativa de nacos de lombo de novilho trinchado navegando num leito de receita até desaguar no estômago e a respectiva espiritualização da foz a copiosas doses de whiskey, a tempestade interior parecia amainar, como quando, envolvidos por um breu diabólico, um vento ameno, doce, faz os jovens marinheiros acreditar que a linha de sombra está perto de ser ultrapassada. E foi com a sensação de que um pequeno bote de jovialidade não tardaria a dar à costa que Tomás confirmou a sua presença.

− Parece-me excelente. Está combinado. Mais logo apareço então.

Ao dizê-lo, sentiu que o expansivo registo do amigo, dando ares de relaxamento e boa disposição, estava a ser impulsionado por uma hélice cuja pá mais vigorosa era o nervosismo, pois de cada vez que Tomás, mesmo que sucintamente, com a íris decalcava a figura da rapariga, ia crescendo naquele a necessidade de dirigir a conversa, de forma a mantê-la longe desse rumo.

− Vê lá se não te cortas! Não era a primeira vez!…

Tomás assentiu de novo de forma gestual, aconchegando o queixo ao peito, espontando ligeiramente os lábios e fechando, quase completamente, os olhos.

Ao chegar à Trindade, já de pé, pronto para mudar de linha, Tomás avistou Fábio, a mais curiosa personagem do alucinado grupo de literatos com que por vezes cirandava. Terminara recentemente, e cheio de convicção, um mestrado em filosofia moderna e contemporânea, mas era um daqueles tipos que só assimilariam o conceito de filosofia enquanto terapia se dormissem com a professora que lhos tentasse explicar. Padecia, como outros jovens, de uma inépcia de último grau no trato com as raparigas, embora fosse de certeza o que mais planos engendrara para a superar. Desiludido com a última aventura amorosa, ganhou uma afeição mesquinha em assustar os amigos com uma corruptela de um adágio que lera em Schopenhauer: o primeiro amor é uma decepção reconhecida; o último, uma por reconhecer. Submetera-se, na adolescência, a radiações chernobylescas de literatura, e o mais poderoso efeito secundário talvez fosse o ângulo impossível que escolhera para se introduzir na idade adulta, maximizando a trajectória da irresponsabilidade: transposto o plano inclinado da adolescência, onde uns tropeçam e outros deslizam, espera-se dos jovens que se ergam quando este chega ao fim − Fábio escolheu deitar-se, e nem todos os dias os pais o conseguiam tirar da cama. Em regra aprumado, hoje aparentava um ar cediço, como se um vendaval de fumo e suor tivesse encontrado no seu rosto um adequado pousio. Ao levantar-se parecia resmonear, dir-se-ia com alguém – mas com ele não estava ninguém. Tomás seguiu-o e, acotovelando meia dúzia de transeuntes, estava prestes a alcançá-lo no fim das segundas escadas rolantes, que dão acesso à plataforma principal.

− Fábio! Companheiro! – bradou.

Um silvo estrepitoso e agudo de carruagem a travar, EXPRESSO Póvoa de Varzim, coligou-se com o tropel usual para impedir um apressado Fábio de ouvir, e Tomás pensou como poderia ser divertido repetir nele a façanha de malvadez que Frizer fez consigo. Decidiu contudo abordá-lo sem estrilho.

− Então meu, há quanto tempo!… – lançou Tomás, já dentro da carruagem, num tom baixo mas caloroso. – O que andas por aqui a fazer?

Fábio, que ainda não estava bem sentado, abria prontamente um livro. Podemos encontrar, com maior ou menor dificuldade, um pastor sem cajado, um bispo sem báculo, um velho oblíquo sem bengala, ou até um capacete sem francalete e turíbulo sem incenso – mas depois de conviver algum tempo com Fábio fica-se com a impressão de que não seríamos capazes de o encontrar sem um livro nem que o surpreendêssemos na hora do banho.

− Olá, Tomás. Fui a mais uma maldita entrevista. Desde que os meus pais me obrigaram a inscrever no maldito centro de emprego que não faço outra coisa que não sabotar as ofertas que me chegam por carta a casa – redarguiu, patentemente agastado com a situação.

Surpreendido com a resposta, Tomás voltou a confirmar a falta de frescura do amigo. Perlados fios de suor deslizavam desde as têmporas. As feições, macilentas, pendiam como estalactites ou, saltemos com a metáfora para a outra ponta do termómetro, derretiam como cera numa vela que arde. Parecia deter os sintomas de alguém que desactivou uma bomba no último segundo: a agitação nele tinha atingido uma tal febrilidade que a despressurização prolongar-se-ia por dezenas de horas. Quem não estivesse a par do teor da atribulação diria que umas semanas de férias era mesmo o que aquele jovem estava a precisar.

− Uma entrevista… Pelo teu aspecto, já vi que está a ser difícil manteres-te a salvo… – comentou Tomás, num tom lamentoso que o próprio lamentava ter revestido de ironia.

− Temos de estar de atalaia. Cada dia é mais complicado, olha para o que eu te digo… − num local menos buliçoso do que uma carruagem do metro, seria possível detectar uma persistente inquietude na sua voz. De repente, quando o volante já parecia estar no campo de Tomás, acrescentou: – A ti também já te vi com melhor aspecto…

Tomás valeu-se de um ligeiro solavanco, fez crer que ia respeitar o que parecia ser uma instância da habitual inclinação de Fábio para ler em transportes públicos, por mais apinhados que estes estivessem, deu três passos atrás, lançou um «falamos depois» e esquivou-se a servir de tema de conversa.

Fábio trazia consigo um livro puído, listrado de amarelo, que Tomás, apesar do esforço, não conseguiu identificar. Em alguns traços da sua fisionomia o livro recordava-lhe um outro, sobre arte conceptual, que Fábio um dia lhe tinha emprestado como objecto de entretenimento para a hora do almoço – conheceram-se aquando do último trabalho, num outlet, a que a carruagem em breve lamberá o traseiro, ali em Vila do Conde. A propósito desse livro, Tomás comentou com o amigo que a dita arte conceptual lhe parecia uma casa onde os conceitos engordaram de tal forma que toda a arte se viu obrigada a concentrar na tabuleta da porta que indica o que a casa contém. Fábio limitara a sua resposta a um sorriso comprometido, de quem, estando habituado às observações cáusticas de Tomás, cujas avaliações pareciam unicamente guiadas pela necessidade de ser enfáticas, elevando sempre uma primeira e superficial impressão a ideia definitiva, ainda assim não deixa de lhe reconhecer um faro inato para a justa intuição. Esta recordação impeliu Tomás para uma ravina da memória onde rebolavam, aqui e acolá, conversas com o amigo, que, concluiu agora, nunca eram tão interessantes como na hora do almoço naquele asfixiante outlet. Não conhecia ninguém que tivesse gostado de lá trabalhar – pelo contrário, conheceu muitas jovens feiticeiras, que as lojas contratam com vista a despoletar no visitante endomingado o mesmo tipo de mecanismo que o néctar nas abelhas, jovens atraentes que envernizam, recorrendo a sombreados e cremes de vária índole, a angústia sempre que lá entram, mas que choram de raiva e desespero, entre a almofada e o lençol, em muitas solitárias noites; mas a reacção de Fábio ia muito para lá da infelicidade: parecia verdadeiramente ressentido por cada minuto que lá passara, como se o trabalho tivesse nele gravado uma tatuagem definitiva, uma marca que nunca conseguiria ultrapassar. Uma vez, à saída, num tom de amarga melancolia, disse a Tomás: Treblinka não terá sido pior. Perante o espanto deste, repetiu uma das muitas frases, de tonalidade filosófica, a que recorria com a frequência com que visitamos locais que acarinhamos: a amizade é a elevação da franqueza a critério tácito de expressão do pensamento – definição que Tomás recebia ao mesmo tempo como uma justificação e um cumprimento.

Sorrateiro, infiltrou-se através das recordações o desejo de convidar Fábio para a pândega dessa noite e, deixando-se seduzir por ele, Tomás dirigiu-se ao companheiro, para desespero de um velhote de barba encanecida que, interposto entre os dois, tinha de largar as mãos coriáceas do varão de segurança para permitir a aproximação de Tomás, o que claramente lhe desagradava.

− Fábio – este, já esquecido que aquele viajava na mesma carruagem, olhou-o com alguma incredulidade –, logo à noite vou a uma jantarada no Galo d’Ouro. E que tal se aparecesses? Estás convidado. É organizado pelo pessoal do Frizer, aquele meu amigo de Economia, já várias vezes te falei dele. Será uma grande festa, como de costume.

− Deus me livre! A sério, obrigado Tomás, mas para essas sessões já não tenho pachorra. Emborcar vodka, whiskey e absinto até de manhã, não é? Nunca mais saem da adolescência, esses gajos… Essas coisas não se podem repetir… Não é a mesma coisa… Vão acabar como…

Tomás afastou-se, adivinhando a lengalenga. Fábio tinha o hábito de recusar com estilo todos os convites do género – e os amigos, por norma, até se divertiam com isso; mas neste momento a paciência de Tomás, tolhida pelo cansaço, deu de si. Aquando do último convite, no início do Verão, Fábio respondera-lhe por email, nos seguintes termos: Quando começamos a beber absinto temos em mente o jovem garboso e petulante de Manet, mas esse caminho tem como destino o sinistro velhote de Degas, incapaz de animar a mais infeliz e desgraçada mulher. Exactamente a quê que ele se estava a referir, Tomás não sabia. Vinha aí outra tirada destas, pensou Tomás. Há pessoas a quem um dia tocaram numa tecla da sua sensibilidade e elas, desconhecendo que a sensibilidade é um piano, procuram sempre o mesmo estímulo, apaixonadas pela única nota que conhecem, pensou Tomás. Eu não suporto o mesmo tom por muito tempo – diabos o carreguem!, pensou Tomás.

Enquanto pela sua cabeça estes pensamentos iam fluindo, viu que numa pontinha havia um lugar vago, encostado à janela envidraçada, e não hesitou em percorrer meia carruagem para se sentar – piscando, de passagem, o olho a Frizer, assim fazendo-o perceber que não esquecia que ele estava bem acompanhado e que teriam de pôr a conversa em dia.

Da carruagem em movimento, olhando pelo matiz opalino da janela, à luz de um pôr-do-sol flamejante, o que viu Tomás? Campos de milho por segar, que vistos de cima parecem relvados picotados, a perder de vista, onde a custo detectamos o ocasional tractor encimado por um velhote de mãos calejadas, a que só resta uma ondeada lanugem grisalha na orla da cabeça; pequenas confecções, de cariz familiar, que adivinhamos cheias de mulheres com uma vida demasiado preenchida, que engravidaram cedo, ganham mal e vivem pior; dezenas de hortas descuidadas, em que entre as couves e o alho francês o visitante encontrará grandes pedaços de chapa oxidada que a velhota de dedos anquilosados e carrapito bem composto tem de contornar, calcando ervas daninhas, enquanto espera em vão que um filho os acarte dali; estufas, muitas estufas, meia dúzia de cada vez, ao lado de mata ressequida, ponteada por pinheiros, e de uma videira descuidada; um quintal, por onde um cão circula num convívio pacífico com as galinhas e os patos, até ao dia em que, zangado, lhes arrancará a cabeça, antecipando-se ao dono; um ribeirinho, que suplica uma inundação de vigor depois de agrestes meses soalheiros; casas de arquitectura muito diferente e muito duvidosa, sempre esmaecidas, de portões altaneiros com o ferrolho por dentro corrido… Província! A caótica paisagem da província rural! E, ultrapassando a ponte sobre o Ave, de cujas águas ao fim da tarde emerge um hipnotizante brilho âmbar, a imponência do mosteiro de Santa Clara a introduzir a província urbana, Vila do Conde e a sua elegante melancolia, onde de vez em quando Tomás vai com os amigos fazer o rapto das sabinas, e por fim a Póvoa, Póvoa de Varzim, na boca um acre sabor de soldado que regressa a casa vencido e quebrado depois de lutar numa guerra na qual nunca quis participar.

− Raios te partam! Deus te livre de voltares a jogar futebol na eira da avó! Deste-lhe cabo de mais um vaso! Tu e o teu primo pintam o diabo naquela casa!

Uma mãe, algures, ameaçava estridente o filho pelo telemóvel, numa intimação que soou familiar a Tomás e que estranhamente parecia estender-se a todos os que chegavam à última paragem.

Pela cidade, a luz solar desvanecia-se, o horizonte sugava, guloso, o que restava do regular semicírculo incandescente, e uma tepidez lúgubre descia sobre todas as coisas. Tomás, enquanto coleava até à Praça do Almada, voltou a cair num humor taciturno. Ao por lá passar viu, entre dois quiosques, um guna e a sua namorada. Conhecia-o de um torneio de futebol − faltava um guarda-redes e Frizer convidou-o. Se a Póvoa, para Tomás, é o lar, para tipos como este é o seu jardim, o guna suspicaz e o seu jardim, onde amiúde faz uso da robusta cobardia do frágil adolescente para sacudir os seus trapos até de lá saltar uma carteira, mais ou menos recheada. Sempre que os via com as namoradas, Tomás ficava com a sensação de que eles regiam a relação com uma concentração absoluta de poderes, e apostava que seria impossível descortinar qualquer hipótese de esta evoluir mesmo para um semiparlamentarismo. Achava curioso não conseguir fugir à atitude exactamente oposta: ele, logo que conquistava o reino, abdicava do trono, o que o fazia sentir uma espécie de banana ao lado desses gajos; mas seguia, também aí, o modelo de gestão que lhe atribua menos trabalho − e talvez a isso não fossem estranhas as constantes falências do regime. Cumprimentou-o e seguiu pelo passeio lateral à estrada nacional até à Avenida Mouzinho, que decidiu descer, em direcção à praia, rumo a casa. À entrada da José Malgueira, pensou em como seria maravilhoso virar aí e enfiar-se no Santa Clara, único cinema da cidade entretanto fechado, fugir deste mundo e entrar noutro até à hora do jantar, New York Herald Tribune! New York Herald Tribune!, Um quiosque a seguir ao outro, mas já não há ardinas!, pensou, Menos uma possibilidade de a encontrarmos, pensou Tomás. Continuou descendo a Mouzinho e depressa chegou a casa, onde entrou furtivo, de forma a não se envolver em conversas sobre o exame. Quando viu que estava só, saltou logo para a bojuda banheira e tomou um longo banho. Depois, desfez a barba e decidiu aperaltar-se como se fosse para um baile de finalistas, vendo neste gesto um primeiro passo para acabar o dia com dignidade.

Ao chegar ao jantar, numa rua perpendicular à Junqueira, ninguém ficou indiferente à sua figura casquilha, enfarpelado e de barba escanhoada, e enquanto cumprimentava um a um o pessoal que já lá estava, ouvia Frizer troçar de si.

− Olhem bem para o Tomás! Pais ingénuos, irmãos desleixados, mães inocentes, zelem pelas vossas filhas!

Zombeteiro, Frizer conseguia muitas vezes, mesmo invocando as ideias mais cretinas, evaporar a má disposição de Tomás. O seu gozo era raro não ser obtundente, e até carinhoso, as palavras de escárnio, na sua boca, em vez de maldade pareciam conter uma certa gratidão pelo objecto que lhes conferiu o direito a serem emitidas.

− Não podes ver um pobre de camisa lavada! − respondeu Tomás, entre sorrisos.

– Vamos mas é lá para dentro, começar a festa com uma rodada de brandy!

Rapidamente, todos entraram e se sentaram, e assim começou a pândega. O tinir era mais de copos do que garfos e facas. Comia-se bem, mas propunham-se brindes a todo o momento. Atiravam-se azeitonas de uma ponta à outra da mesa. Recontavam-se as histórias de sempre com a febre da primeira vez. Falava-se e gargalhava-se muito alto. Nestes jantares é raro quem não actua com uma certa extravagância de maneiras: o exagero é a forma por excelência que a imaturidade encontra de demonstrar que se sente à vontade. Tomás aproveitou a confusão generalizada que se instalara e abordou Frizer, com a discrição possível, a propósito do assunto pendente.

− Então Frizer, temos miúda na barra, seu macaquinho…?

− Acho que é coisa séria, Tomás. Talvez seja um Juglar. Quem sabe até um Kondratiev.

O tom da resposta não era acerbo, mas, comparado com o calor que era transmitido pelas restantes conversas, bastante frio e como que enrolado em incómodo, e isso foi o suficiente para Tomás compreender a seriedade da questão. O desejo de que a relação se prolongasse por médios ou longos ciclos schumpetereanos, desejo tão raro em Frizer, e o afago dos lóbulos das orelhas, tique nervoso reconhecido, já o denunciava, mas a dificuldade ou recusa em expor os termos da relação confirmou-o, pois os homens nisso não diferem: expressam-se de ânimo leve e por vezes fazendo uso da linguagem mais brejeira quando discorrem sobre objectos de desejo, porém, apaixonados, ficam logo diminuídos, circunspectos, Oozarus a quem cortaram a cauda.

Ora, nesta modalidade de jantaradas, uma proibição mais forte do que à água só às conversas reservadas, e logo um companheiro procurou levantar o véu ao burburinho.

− Do quê que vocês estão a falar, meus sacanas? Por acaso agora temos segredinhos?…

− Nada nada, assunto lá da faculdade, vamos lá cantar! – e, numa toada brandyloquente, começou a cantar a música dedicada ao Pablito.

 Pablooo Pablito Aimar
que la gloria volverá
como Eusébio y Rui Costa
otro pibe inmortal!

A euforia alastrou-se pela sala. Frizer e a maioria puseram-se de pé, enquanto os restantes lançavam «Lá estão eles com o seu sebastianismo de pifo!» e outros ditos jocosos incapazes de travar as cordas vocais que já se faziam ouvir com estrondo. Com o pé esquerdo em cima de uma cadeira e o direito em cima da mesa, um guardanapo a girar na mão direita, Frizer liderava as suas hostes, que tinha em Tomás, todo alegria, o mais entusiasmado e rosado escudeiro.

Logo que terminou o jantar, Tomás pressentiu a fragilidade dos alicerces da sua boa disposição: não eram só as pernas que já mal suportavam o corpo, a própria evasão proporcionada pela embriaguez encontrava-se na habitual rua sem saída, prestes a ser encarcerada pelos guardas prisionais da consciência. Trôpego, gingou com os companheiros até à Praça do Almada. Estes riam-se espalhafatosamente de anedotas libidinosas que à vez iam contando e penduravam-se uns nos outros para não cair. Tomás, um pouco afastado, ia balbuciando palavras incompreensíveis, de forma entaramelada, por entre imprecações contra a cadeira em que decerto ia chumbar.

– Heterocedasticidade… homocedasticidade… Econometria, questão que eu tenho comigo mesmo!… Lançar o azorrague à Econometria, é isso que ela merece!

Ao entrar na praça, piscando os olhos perante a luz bruxuleante dos candeeiros, confundiu o pelourinho com um crucifixo, e viu nele pregada uma tabuleta com o acrónimo IEFP talhado.

 cruz2 (1)

Alucinado, julgando que o queriam crucificar, chamou por Frizer.

Frizer, o que passa aqui?!

− O que se passa aqui como, campeão?

− O pelourinho!

− O quê que tem o pelourinho?… Está rijo, onde sempre esteve.

− Não vês lá uma cruz?! Quem é que querem crucificar?!

À alucinação de Tomás, cuja visão encheu-o de adrenalina, Frizer respondeu com uma gargalhada e ignorou-o. Bêbado, a pareidolia tornava-o insuportável. A apofenia, paranóico. Em cada coisa via um anagrama suspeito, mensagem por decifrar, oculto poder misterioso.

De repente, ouviu-se ao perto o que parecia ser o ranger de uma persiana de plástico a subir, seguido de um clique metálico.

– Tomás, ‘bora daqui, antes que pegem numa pá e nos partam o pescoço, mexe-me esses pés.

– Pá, pescoço, pé, kameamea! Vamos a isso, camaradas! – gritava Tomás, fulguroso, electrizante, enlouquecido, enquanto continuava a dirigir-se na direcção do estranho símbolo.

− Sai daí Tomás! – gritou Frizer, já de longe.

− Foge Tomás! – gritaram agora todos.

Uma súplica desesperada para que fugisse do calvário onde se encontrava a cruz do IEFP foi tudo o que Tomás dessa noite reteve. Em breve saberia que na galeria das idades, a adulta é uma armadilha. Para nela se mover, aquela indicação para sempre guardaria com carinho.

 

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This entry was posted on 01/11/2013 by in Ficção.

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