Vale do Ave

Revista Literária

Companhia Lobinho 63, ou a última funcionalidade por fazer

O mais peor

 

Apesar de sentir os sapatos afundarem ligeiramente na terra amolecida pela chuva da noite anterior, o Sr. Kaburagi constatou que o tempo estava ideal para se engolir maçãs ao ar livre. Ele girou a fruta entre os dedos e mordeu na parte que julgava ser a mais macia. Apertou um pouco mais a pulseira de crocodilo do relógio enquanto mastigava. Eram quinze para as seis. Não que isto o preocupasse. O tempo raramente causava problemas ao Sr. Kaburagi, até porque ele conhecia vários métodos de fazê-lo passar. E esta tendência modesta e distraída de fazer ir passando as horas havia sido o primeiro motivo da atração que Mia sentira por ele, pois permitia ao homem dar a impressão de ser capaz de pensar em qualquer assunto de maneira estritamente prática. O que justificava o sentimento de Mia de que, no percurso dos anos, não fora propriamente mimada, mas poupada.

Antes de dar uma nova mordida na sua maçã, ele espalmou no ar uma das mãos, e prestou atenção na pele cor de iodo da ponta dos dedos. Qualquer pessoa que tenha sofrido as influências de um arrazoado tão modesto de clichês genéticos conhece as chances de acabar com os dedos assim, apesar das tentativas que as gerações anteriores fizeram para escapar daquilo com gestos cada vez mais amplos e cada vez mais insuficientes.

Ao ouvi-lo passar pelo pomar, o collie mestiço foi ao encontro do Sr. Kaburagi sem abanar a cola, e os dois juntos se aproximaram das baias onde as éguas Teresa e Margarida relinchavam na direção do outro lado da estrada de terra.

O outono compensava agora a infinidade tostada de talos de trigo que descia até o rio, e um vento leste fazia farfalhar, sem desprender dos galhos, as últimas folhas dos olmos que o Sr. Kaburagi mandara plantar obedecendo à lei da perspectiva.

Ele mordeu a maçã outra vez e desviou das poças que refletiam baçamente o céu. Sem dar a impressão de saber o que fazia, apoiou o pé direito na porta coberta de metal corrugado do celeiro e olhou para a vaca de leite que andava sozinha no curral.

O lado esquerdo do galpão abrigava uma aromática montanha de alfafa peletizada em sacas de vinte e cinco e quarenta quilos. Ontem, depois de somar uma coluna de números, ele concluiu que aquilo deveria durar meio ano. Mas hoje, olhando assim pela abertura da janela, poderia apostar todos os peixes que imaginava fisgar naquela tarde que aquilo duraria um pouco mais.

Então, com o cachorro correndo à sua frente, Kaburagi se deteve ao lado do carro por um momento, puxando para cima as calças na altura da cintura e mantendo a porta do carro aberta, enquanto segurava a maçã com a boca. Depois se acomodou atrás do volante e esticou o braço, dando ao cachorro o miolo de sua maçã. Ligou o rádio antes de enfiar e girar a chave na ignição. Pescar podia ser tão bom quanto qualquer programa da TV, ele costumava repetir, tentando convencer Mia a entrar no carro.

O Sr. Kaburagi fizera as contas de cabeça duas vezes: as melhorias na pista diminuíram o trajeto em pelo menos quinze minutos. Mesmo assim, já eram quase oito horas quando ele viu as casinhas na subida do morro e depois, quando a estrada se nivelou, a parte dos fundos da sua cabana.

Ao sentir a brisa do rio entrar pela janela, ele até pensou em pisar no acelerador, mas, ao cabo de um intervalo de avaliações indecisas, manteve a velocidade em 60 quilômetros por hora, o máximo que aquele trecho da estrada permitia.

Duas curvas depois reduziu a velocidade, saiu da pista, e subiu por entre os choupos. Viu, ao longe, um caminhão passar trazendo pilhas de abóboras. Ele conhecia bem o lugar e tentou imaginar de onde poderiam ter tirado abóboras suficientes para encher um caminhão. A questão o deixou levemente irritado, pois parecia parte de uma dúvida mais ampla, e ele não conseguia, apesar da suposta perfeição com que costumava colocar os acontecimentos numa perspectiva puramente racional, ter certeza da resposta. Depois de algum tempo, o Sr. Kaburagi respondeu: “Meu Deus, como é que eu vou saber?”

O rio tem a forma de uma perna dobrada e as suas margens estão cobertas por um cascalho cinza.

Ele terminou de ouvir a previsão do tempo e desligou o rádio e parou o carro perto da porta da frente. Desceu completamente o vidro da janela e descansou um instante com o cotovelo para fora. Era raro encontrar invasores no que ele chamava de o seu leito do rio, situado a dois quilômetros e meio da rodovia principal.

Na última vez que tinha estado ali – Mia viera com ele –, ficou por quatro dias e pescou dezoito peixes enormes. Um deles ainda estava na parede da sala, envernizado, de boca e olhos abertos.

Ele suspirou, sentindo o perfume de maçã saindo da sua boca. Abriu a porta e saiu do carro devagar, resguardando a si mesmo dentro da sensação de que a sua ida à cabana dispensava explicações. Aquele era um assunto que eles já haviam discutido do começo ao fim, e em relação ao qual estavam de pleno acordo. Mia, resumindo o problema do ponto de vista do Sr. Kaburagi, disse a ele certa vez: “Muito bem, Ashida. Você sempre soube qual era a melhor coisa a fazer com o tempo dos outros. Mas agora que o tempo é seu a coisa parece ser um pouco diferente”.

Mas apesar de concordar parcialmente com a sua mulher, o Sr. Kaburagi não tinha motivos para duvidar da sua capacidade de fazer o tempo passar; era uma coisa que ele poderia provar – embora não tivesse a intenção de fazê-lo naquele momento. Na verdade, de uns tempos para cá, começara a desconfiar que a sua praticidade encontrara apoio exclusivamente na indecisão da sua mulher.

Depois de pegar as duas mochilas com a mesma mão e fechar com a outra o porta-malas, ele atravessou metade do terreno, plano como um lago, e respirou bem fundo, apoiando uma das mãos no corrimão quando começou a subir a escadinha reforçada com tábuas novas da entrada. No alto, raspou a lama do sapato enquanto cuspia para o lado e olhava as nuvens entre os pinheiros, translúcidas como um copo de cerveja escura erguido contra a luz. Lembrou de novo da sua mulher e daquele aparelho de televisão perpetuamente ligado.

Ele destrancou a porta da cabana e empurrou com o ombro. Tirou os óculos e começou a esfregar com a ponta da camisa o vapor que embaçava o canto das lentes. Sentiu-se cansado de dirigir e achou melhor descalçar os sapatos e deitar por alguns minutos. Não queria dormir. Só deitar e descansar antes de pegar suas coisas e caminhar rio abaixo.

O mobiliário da cabana – inclusive as cadeiras de armar e a mesa de pingue-pongue – consistia quase exclusivamente em produtos das suas aulas de carpintaria. Mia tinha feito uma tentativa um tanto desajeitada de atenuar a rusticidade do lugar, espalhando almofadas azuis e verdes e pendurando cortinas de bambu diante das janelas.

A casa mais próxima ficava quilômetro e meio a oeste da cabana e pertencia a um sujeito pouco sensível e reticente chamado Tisto. Entre eles não ocorrera nenhum desentendimento declarado, o que não impedia que se evitassem mutuamente.

O Sr. Kaburagi ajeitou a cabeça no travesseiro e ficou deitado de lado por um tempo, de olhos fechados, com a manta xadreza sobre as pernas, remexendo os dedos dos pés e sentindo a superfície lisa e fria do mogno através do tecido fino das meias. Esticou o braço para fora da cama e, sentindo frio, o puxou de volta imediatamente para junto do corpo. Lembrou que àquela hora Mia já estaria acordada, fazendo coisas pela casa. Depois se virou de costas para a janela. Não pretendia pegar no sono. Só queria descansar um pouco.

Lá pelo meio da tarde, o Sr. Kaburagi acordou pensando ter ouvido o barulho de alguma coisa cavando perto da janela. Fechou os olhos de novo, apertando-os um pouco, e depois os reabriu. Apoiou o cotovelo no travesseiro e continuou ouvindo. Então se levantou e foi até a janela. Mas não havia nada. Só o capim alto e as árvores e depois os morros ligeiramente esfumaçados e borrados de azul.

Sentou-se pesadamente na beirada da cama. Abotoou a camisa e esticou a mão para alcançar os sapatos de cano alto. Notou o brilho alaranjado na parede em frente à janela. Foi ao banheiro e lavou o rosto. Voltou ao quarto, tirou do bolso da jaqueta um exemplar novo da revista rodoviária e o guardou na gaveta ao lado da sua coleção de mapas. Depois atravessou a sala e o pequeno corredor e ficou olhando a estampa da cortina da cozinha: fileiras de bules intercaladas com fileiras de xícaras fumegantes de café. Nas paredes de lambris de nogueira, um quadro de avisos de cortiça e alguns panos redondos bordados pela mulher com quem o Sr. Kaburagi teve o bom senso de se comprometer. Era ela a única coisa que verdadeiramente permitia que as horas boas pudessem ser enfileiradas em dias e até em semanas.

Ele levou o carro até o mais próximo possível da cabana e começou a descarregar o que faltava. A última coisa que tirou do carro foi um cordão de náilon branco, forte como arame e não muito mais grosso, que estava no porta-luvas. Tendo servido na Marinha Mercante, o Sr. Kaburagi entendia de cordas e sabia fazer todos os tipos de nós. Mais tarde, quando foi arrumar as chumbadas e as iscas de borracha vermelhas e alaranjadas que imitavam insetos, deixou o cordão na gaveta da pia. Sentado à mesa, verificando a resistência das linhas e separando os apetrechos que enfiaria numa das mochilas, o Sr. Kaburagi colocou sua caixa de equipamentos aberta sobre a outra cadeira. Ficou em pé, achando que deveria arranjar tempo para lixar e arredondar as quinas da mesa. Ainda teria algumas horas para pescar naquela mesma tarde. E, além disso, teria também o dia seguinte. O dia seguinte inteiro.

Podia-se ouvir novamente o barulho de alguma coisa cavando, mas o Sr. Kaburagi não se preocupou em ir até a janela. Colocou pilhas novas na lanterna. Escutou o clique e apontou o facho de luz para a própria mão. Ficou olhando por um instante a palma translúcida e avermelhada. Depois desligou a lanterna e colocou-a de volta no lugar. O estojo dos anzóis estava rasgado, fora aberto e fechado tantas vezes que sua superfície tinha ficado macia como um pedaço de camurça.

Perto do armário da cozinha, ele calçou suas botas com perneiras à prova d’água. Colocou algumas broas de aveia dentro do bolso do casaco. Em seguida, muito devagar, desceu o morro na direção do rio, com cuidado para não cair na trilha escorregadia. Por vezes tinha de empurrar os arbustos para avançar, segurando a vara de pesca horizontalmente ao lado do corpo. Quando cansava, colocava-a presa embaixo do sovaco, como um lanceiro ou coisa parecida. Num dos momentos em que calçava o molinete grande contra a cuia do sovaco, olhou para um dos lados e viu duas armadilhas vazias a uma distância de trinta metros. Tentou imaginar quem as teria colocado ali. Depois manteve os olhos baixos, atento à trilha. Ele já podia ouvir o barulho do rio.

Por fim, o Sr. Kaburagi afastou a folhagem e olhou em volta, procurando o melhor lugar. Concluiu que estava muito bem onde estava. Encostou-se no tronco de uma árvore enquanto enfiava a linha de pesca pelas guias de sua vara. Depois se agachou e escolheu na mochila a isca azul com um filete alaranjado no dorso. Verificou se as perneiras estavam bem presas ao cinto e caminhou devagar para dentro do rio. As pedras menores ao longo da margem estalavam e deslizavam umas sobre as outras debaixo da bota. Parou um instante, tentando manter o equilíbrio, depois avançou um pouco mais. O rio estava cheio por causa das últimas chuvas e ele não ia conseguir descer além daquele ponto. Então destravou o molinete e fez um belo arremesso na direção contrária à correnteza. A água fria batia e rodopiava, espumando e fazendo pressão até a altura do joelho.

Depois de um tempo, saiu do rio e sentou numa pedra. Não tinha pressa de fazer nada. Trocou a isca azul por outra verde, quase fluorescente. Ficou em pé um minuto, olhando a outra margem. No outro lado do rio havia uma faixa branca de areia. Mas não tinha como chegar lá. Então ele se agachou de novo. Tirou o chapéu forrado de feltro que estava dobrado dentro da mochila e o colocou na cabeça, prendendo o elástico acetinado debaixo do queixo. O vento arrastava rapidamente as nuvens para fora do vale. Pegou o rolo de fita adesiva e passou um pouco na parte da alça que estava desfiando. Enquanto girava a fita em volta da alça, viu um pneu amarrado a um galho entre um punhado de samambaias que cobriam o tronco próximo do lugar onde ele estava sentado. Parecia um balanço improvisado para crianças. O Sr. Kaburagi coçou a cabeça e depois encostou a mochila na árvore e andou novamente na direção do rio.

Tinha acabado de fazer o arremesso quando ouviu uma saraivada de tiros vinda de algum ponto distante da floresta. Contou sete. Mas talvez tivessem sido oito disparos. Segurou a vara com uma das mãos e com a outra tirou uma broa do bolso do casaco. Comeu enquanto tentava olhar pelo túnel verde-escuro de árvores diante da margem. A noite estava próxima, mas sua cabana não.

Alguns minutos depois, viu um cachorro sair aos trambolhões dos arbustos. Estava mexendo a cabeça para um lado e para o outro, como se tivesse perdido ali o que viera rastreando. O cachorro virou a cabeça para trás, latiu e então saltou um amontoado pequeno de pedras e entrou correndo no mato.

O Sr. Kaburagi continuou a pescar. Podia sentir com os pés os espaços do fundo cobertos de areia. Depois de meia hora voltou à margem. Pensou em fazer uma fogueira, mas decidiu que não ia ficar ali por muito tempo. Pegou outra broa de aveia do bolso da jaqueta e comeu. Depois abriu o fecho de um dos bolsos laterais da mochila e escolheu a chumbada em forma de gota. Trocou as iscas outra vez, pondo mais peso na linha. Voltou ao rio e tornou a arremessar, segurando firme o punho da vara contra a barriga. Deixou que a correnteza puxasse até que a linha ficasse frouxa. Então acionou a trava do molinete. Suas esperanças de sucesso se aceleraram quando a linha esticou. Forçou as pernas, dando dois passos para trás e escutou um tiro. Depois outro, e logo em seguida um terceiro. De calibres diferentes.

O cachorro reapareceu e depois dele saíram, empurrando os galhos e afastando a vegetação com as mãos, duas crianças e um homem. O Sr. Kaburagi reconheceu imediatamente o seu vizinho. Os olhos e a expressão vazia de Tisto, junto à estranha e prolongada risada dos meninos o deixavam perturbado, tão perturbado quanto um homem desacostumado com situações capazes de surrealizar algo tão trivial quanto uma pescaria pode ficar.

Os três andaram pela aléia sombreada até chegar à margem, observando primeiro o Sr. Kaburagi, e depois o rio, nas duas direções. Ele afrouxou um pouco a linha. Viu que o menor dos meninos trazia, sobre um dos ombros, coelhos atados com o tipo de cordão usado para abrir e fechar venezianas. E no outro ombro, também amarrado, mas de uma maneira diferente, com as patas todas no mesmo nó, um gato enorme e parcialmente esfolado. O outro garoto estava ao lado do cachorro e segurava uma espingarda calibre 12 na mão direita, apontando o cano para o céu.

O Sr. Kaburagi ouvira dizer que, por quase quinze anos, para completar seu salário de ajudante farmacêutico, Tisto também dirigira um ônibus escolar – atividade que sua aparência atual não permitia sequer imaginar que fosse capaz de realizar nem mesmo numa outra encarnação.

O Sr. Kaburagi pensou ter visto alguma coisa com o rabo do olho. Virou a cabeça e não havia nada. Ele sentia como se algo estivesse derramando dentro dele, uma espécie de dilúvio interno ou qualquer coisa muito parecida. Tentando não ficar nervoso, o Sr. Kaburagi disse a si mesmo: “Você só precisa ficar parado. Não pode rir, nem se espantar com nada que ouvir.”. Ele achava que, em algumas circunstâncias, falar consigo mesmo lhe dava uma coisa para pegar e agarrar como num naufrágio. Então olhou para o cachorro como quem não quer nada, e num gesto bastante despreocupado tirou do bolso uma broa e atirou para ele.

Cheio de opiniões que se manifestam sem que ninguém precise pedir, Tisto se aproximou, colocando a ponta de um dos pés na água. Quando ele começou a abrir a boca, o Sr. Kaburagi teve a sensação de que ele iria bocejar. Mas ao invés disto, ele perguntou, apoiando o cabo de madeira da espingarda no quadril. O cano duplo estava apontado para a barriga do Sr. Kaburagi, talvez um pouco mais para cima.

– Você já viu um homem ser baleado na água e sair boiando como um pedaço de isopor?

Um dos garotos, o mais velho, depois de rir e esfregar com força o nariz, disse:

– Aposto que ele nunca fisgou nem um bagre.
Kaburagi tinha uma expressão confusa, olhava para frente, como se tivesse acabado de entrar num beco sem saída que terminasse num muro totalmente branco. Impaciente, Tisto puxou para o lado a velha luva de beisebol que trazia presa ao cinto e perguntou de novo, mas agora com a voz parecendo uma granada de mão cheia de chumbo de caça explodindo no ar.

O Sr. Kaburagi começou a enrolar a linha, sabia que era preciso controlar-se para controlar a situação. Mas ele percebeu uma ansiedade incomum em seu tom de voz quando disse que “não” e segurou a isca que oscilava à sua frente, fincando o anzol na rolha de cortiça presa acima do molinete. Depois olhou para um dos garotos, fingindo ter aceitado bem aquela pergunta, chegou mesmo a sorrir – e seu sorriso era uma maneira muito habilidosa de dizer que sabia que o pai deles era, no fundo, um sujeito em que qualquer homem poderia confiar a ponto de se deixar barbear por ele e não um desses malucos que acordam pela manhã e querem escalpelar tudo à volta deles.

– Quer mesmo saber? Eu tinha certeza que havia alguém no rio. A minha cabeça funciona mais ou menos como um radar, e eu vejo as coisas antes de olhar pra elas – disse Tisto, e uma sensação distorcida de um enorme espaço em branco se aprofundava à medida que ele falava.

O Sr. Kaburagi ficava tentando imaginar que tipo de motivo empurrara o seu vizinho até ali, mas ele não conseguia encontrar a palavra que procurava. Tudo somado, chegava invariavelmente ao mesmo número redondo, um gigantesco e fluorescente zero.

Tisto fez um gesto estranho e escutaram o percussor sendo puxado para trás e logo depois uma boa carga de chumbo explodiu, espirrando água a sua volta. O Sr. Kaburagi torceu o corpo e arquejou audivelmente, tentando pôr todo o peso numa das pernas sem escorregar. Rapidamente Tisto soltou o pino que abria o cano da espingarda e empurrou para dentro da culatra dois cartuchos de uma só vez.

Sabendo que seria melhor ter paciência, mas incapaz de esperar, o Sr. Kaburagi foi, um pouco pela direita, em direção à faixa de terra que quase formava uma ilhota. Dando um passo para frente, Tisto atirou outra vez, mas agora para cima. Depois acendeu um cigarro para si próprio, e outro para os garotos dividirem. O garoto que carregava os coelhos apontou o dedo para o Sr. Kaburagi e os três começaram a rir, como se precisassem convencer a si mesmos de que aquilo que o Sr. Kaburagi sentira seria capaz de abrir qualquer porta.

– Ficou com medo, não foi? – disse Tisto, dando uma única tragada e soltando o cigarro no chão, apagando-o debaixo do calcanhar e enfiando-o com cuidado para dentro da terra.

A quantidade de pensamentos que naquele momento o Sr. Kaburagi teve de filtrar era enorme, até os programas de TV que Mia gostava de assistir pela manhã vieram, sem nenhuma razão aparente, poluir as sinapses do seu cérebro habitualmente baldio, como se houvesse agora uma ligação, entre aquele fato capital e os acontecimentos mais irrelevantes do cotidiano, que lhe permitisse compreender tudo.

O Sr. Kaburagi podia ouvir o seu coração batendo em toda a parte. Queria andar mais rápido, mas seus movimentos eram todos lentos, como se estivesse com os bolsos cheios de pedras. Suas pernas balançaram e ele caiu, pressionando os joelhos contra a terra mole. Teve de apoiar-se na vara para levantar, precisou fazer força, empurrando-a para dentro da terra. Deixou a vara espetada no chão e entrou na parede de mato à sua frente. Podia ouvir as risadas atrás dele e uma porção de xingamentos que estranhamente entravam uns para dentro dos outros, tornando quase impossível dizer onde um terminava e os outros começavam.

Vinte passos à frente, ele ouviu-se tossir e livrar-se de uma ostra de muco. Depois, com a lentidão de quem anda debaixo d’água ou tenta fugir num pesadelo, recomeçou a subir a trilha. Uma nuvem de mosquitos se movia junto com sua cabeça enquanto ele caminhava. Sem deixar de andar, esfregou uma mão nas calças e percebeu que havia urinado nelas. Então esfregou o alto do nariz debaixo do aro dos óculos e olhou para o lado, em busca de um local para sentar. Sentou num pequeno chumaço de capim entre duas sequóias. Sentiu vontade de rir. Pegou uns gravetos na terra entre as pernas. Estava riscando o fósforo quando notou que suas mãos ainda tremiam. O fósforo apagou. E um inseto enorme pousou no peito de sua bota. O Sr. Kaburagi olhou para ele, porque não queria fechar os olhos.

A mulher do Sr. Kaburagi cochilava, mas acordou quando o sentiu sentar na cama. Ele estava com as mãos e o rosto cobertos de terra, como se tivesse passado a noite cavando um túnel no quintal, e respirando com certa dificuldade, como se estivesse até essa hora treinando para ser o corredor mais rápido do condado. Mas o mais estranho é que Mia sentiu que nem precisava perguntar por quê. Era como se, de uma hora para a outra, restasse apenas a vida cotidiana tomando a forma de uma cicatriz descosturada, aberta de ponta a ponta e permitindo o contato brusco com a realidade viscosa das entranhas.

Trinta minutos depois, o Sr. Kaburagi estava na cozinha, esperando que o café ficasse pronto. Mia, que procurava por ele, o encontrou ali, com uma das mãos espalhada sobre a mesa, prejudicando o efeito delicado que a toalha estampada com frutas recebia da luminosidade que diagonalmente costumava entrar pela janela.

Quando o tempo estava bom, e especialmente quando fazia calor e o trigo estava alto e maduro, ela gostava de se sentar na cadeira de vime junto à janela, percorrendo com os olhos o jardim que pretendia plantar e os bancos de pinho que mandaria pintar de branco.

Antes que chegasse ao fogão, ela se lembrou de dizer a ele que havia na garagem dois aparelhos velhos de televisão, um em cima do outro, e que ele precisava jogar aquilo fora antes que o caminhão do lixo passasse. Depois ela abriu a torneira para lavar um punhado de amoras e fechou os olhos para sentir o aroma. Escutou a torradeira fazer plop e escutou ele apertar de novo o botão porque para o pão ficar torrado era preciso fazer plop duas vezes. Ela secou as mãos e abriu o armário, pegou uma tigela e pôs um pouco de cereal dentro e jogou as amoras por cima. Abriu a porta da geladeira e enfiou a mão dentro para pegar o leite. Depois pegou a torrada e levou-a para a mesa. O Sr. Kaburagi agradeceu. Ela voltou à geladeira e pegou o suco de laranja e ficou parada no meio da cozinha sacudindo a caixa para que o suco se misturasse e ficasse mais espesso. Mia pegou um copo e o colocou ao lado da torrada, serviu o suco enquanto o Sr. Kaburagi olhava a camada de bolhas espumantes que se formava na superfície, ao mesmo tempo em que sentia o cheiro de papelão e laranja se desprendendo da caixa.

Cíntia, a filha do casal, já tinha tomado o seu café e estava agora sentada no sofá da sala, abraçada ao seu violão Gibson, o objeto que ela mais amava. Havia também uma porção de livros e CDs que ela garantia amar. No braço do violão podia-se ler “Eduardo”, o nome do jovem estudante de biologia de quem estava noiva há algum tempo. Era o seu segundo noivado e o Sr. Kaburagi não tinha intenção de colocar-se em seu caminho.

O carro estava estacionado atrás do celeiro, de onde se podia pegar a estrada de terra sem serpentear entre os carvalhos. O Sr. Kaburagi comeu metade da torrada e levantou sem dar nenhum aviso. Ele parecia mais confuso do que dez índios embriagados. Mia ficou olhando ele sair porta afora, sem saber ao certo o que pensar.

Embora frequentasse a igreja na infância, o Sr. Kaburagi nunca tinha chegado perto de acreditar em Deus; nem se deixava perturbar por superstições ou pelos rituais que, mais ou menos, sistematizavam a crença das outras pessoas. Ao contrário de Mia, ele não acreditava que passar debaixo de uma escada fosse capaz de projetar sobre ele algum mal, nem que quebrar um espelho trouxesse sete anos de azar a quem quer que fosse.

O Sr. Kaburagi entrou no carro, ficou ali parado, com as duas mãos no volante, olhando através do pára-brisa, como se estivesse tentando fazer alguma escolha. Depois ligou o motor e, de ré, passou sobre o cascalho, saindo diretamente na estrada. Fez o retorno devagar, ouvindo o barulho do pneu, achando estranho que o som se parecesse tanto com o de uma moeda de 25 centavos rolando pelo assoalho. Então lembrou, sem saber bem por que, de Mia dizendo a ele quando a pediu em casamento: “Em você eu confio. Você vai ver que sim, porque eu vou me colocar nas suas mãos.”.

O carro estava em movimento. Depois da segunda curva, podia-se ver um cachorro caminhando pelo acostamento. O Sr. Kaburagi desviou o carro em sua direção. O impacto, quando a lateral do pára-choque atingiu o animal, foi apenas um pouco maior que o de um champanhe sendo estourado na virada do ano. Ele ajeitou o retrovisor, mas não conseguiu ver nada. Então girou a alavanca da janela, descendo um pouco mais o vidro e pensando o quanto estava satisfeito com o fato de que aquela semana estava chegando ao fim, com sua sequência de dias nublados e garoentos.

Dez minutos depois, o Sr. Kaburagi diminuiu a velocidade, subiu no acostamento e estacionou em frente ao Café Milton. O lugar era apenas um balcão, duas mesas, uma área estreita com uma chapa quente, uma geladeira, um rádio, um mapa rodoviário colado à parede, e mais nada. O Sr. Kaburagi saiu e bateu com força a porta do carro. Não havia mais nenhum lugar onde pudesse beber uma xícara de café, a menos que estivesse disposto a percorrer vinte quilômetros numa direção ou trinta e cinco na outra. Ele abriu o folheto que estava em cima da mesa e pediu uma fatia de torta de limão e uma caneca das grandes de café. Depois ajeitou melhor a bunda na cadeira de plástico e ficou olhando a estrada.

A mulher atarracada trouxe primeiro a caneca fumegante de café e dois minutos depois o pedaço de torta num prato de papelão. Ela esfregou as mãos no avental e ficou um instante olhando para a cara do Sr. Kaburagi; ele não parecia em nada com os demais frequentadores do café, com aqueles olhos puxados e as duas canetas presas ao bolso da camisa branca. Parecia mais um faisão perdido no galinheiro.

O Sr. Kaburagi demorou cerca de vinte minutos para comer a sua torta de limão, parecia estar pensando na vida que sempre teve, ou naquela outra que gostaria de ter. Elogiou o café e pediu outra caneca. A mulher sorriu, tentando esconder os dentes mais estragados.
Pouco antes de terminar o segundo café, o Sr. Kaburagi viu entrar pela porta uma índia com quatro crianças. A índia alinhou-as junto ao balcão, dizendo: “Quatro copos e uma coca-cola, por favor.”.

A mulher atrás do balcão esticou os braços, distribuindo os copos descartáveis entre as crianças e depois colocou a garrafa de refrigerante no tampo gasto do balcão. A índia então começou a servir a bebida às crianças, da menor para a maior. A garotinha tomou um gole daquele xarope, mas seu rosto gorducho, redondo e liso não conseguia produzir nenhuma expressão de satisfação. Depois de deixar um golinho na garrafa e bebê-lo, a índia encostou as costas na parede e meteu a mão dentro da sacola que trazia pendurada no ombro, tirou de lá uma espécie de pipoca doce; ficou comendo aquilo enquanto as crianças terminavam de beber.

O Sr. Kaburagi esticou uma das pernas debaixo da mesa e pensou em si mesmo como um lagarto fazendo a sesta, ou como uma coisa que morresse e não coubesse no caixão. Achou um pouco engraçado pensar em si próprio daquele jeito e reparou que uma das crianças havia esvaziado o seu copo antes das outras. Ela mordia a borda de plástico do copo vazio, com uma malícia bem humorada, uma malignidade divertida que sugeria um cupido cheio de intenções suspeitas. Por mais estranho que pudesse parecer, aquela expressão desgovernada e infantil, levou o Sr. Kaburagi a recordar uma tarde em que estava podando o canteiro e uma chuva forte caiu sem dar nenhum aviso; podia fechar os olhos e ver outra vez as maçãs serem derrubadas pelo vento e ouvir Mia gritando da varanda para que ele deixasse a poda para outro dia e passasse logo para dentro da cozinha.

O Sr. Kaburagi olhou pela janela, como se esperasse vê-la por trás da vidraça do Café. Sabia que podia ouvir perfeitamente a voz esganiçada de Mia. Era só uma questão de expulsar todos os outros sons da sua mente. Ficar muito quieto e prestar muita atenção. Mas, naquele momento, por mais que tentasse, ele não conseguia ficar quieto o suficiente. Apertou bem os olhos, mas tudo que conseguiu ver desta vez foi a sua casa com tudo trancado, as folhas de alvenaria cobrindo as janelas, como se o rádio e a televisão tivessem anunciado uma tempestade das grandes.

As crianças e a índia, com os braceletes de pedrinhas sacudindo nos pulsos, saíram. Ele as imaginou enfiadas numa cabana, vivendo de mingau, bombons e latas de salsicha. Então afastou a cadeira e cruzou a perna esquerda para apertar o nó do cadarço. Ficou olhando por um instante a sola demarcada por losangos. Depois levantou e foi embora, deixando uma nota de dez dobrada debaixo do açucareiro.

O céu estava ficando cheio de nuvens outra vez e a noite podia ser fria demais até para respirar. As montanhas a leste começavam a ficar encobertas por um nevoeiro fininho e perturbador. Toda vez que enxergava aquilo, ele pensava num filme que tinha visto: Hair; um filme em que as pessoas acreditavam que podiam viver vestidas só de capim e flores. E o Sr. Kaburagi aprendera a desprezar essas pessoas, porque ele achava que elas desconheciam partes inteiras de si mesmas.

Uns quilômetros adiante, ele parou o carro e tirou o mapa do porta-luvas. Subiu o vidro da janela e abriu o mapa todo sobre as pernas. Ficou olhando a cadeia de morros que se espalhava ao lado da rodovia, com suas inclinações verdes e quase verticais que mesmo nos melhores dias do ano parecem querer desabar para cima da gente. Lembrou que, uma vez, em pleno domingo, quando ainda era criança, subira um dos morros com a sua companhia dos escoteiros. Lembrava-se de como se sentira bem olhando lá de cima, com o ar carregado de cheiro de pipoca, cachorros-quentes e refrigerante de sabor laranja; era ele que segurava a bandeira dos escoteiros, onde se podia ler, numa letra emendada, mas agradavelmente legível: Companhia Lobinho 63.

Ele fechou um pedaço do mapa e o largou no assento do carona, lembrou-se do dia em que Cíntia aprendeu a abrir portas e a subir nas cadeiras, e de como ele ficava sempre com medo dela cair.


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This entry was posted on 03/11/2013 by in Ficção.

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